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A Medicina Popular e Alguns Remédios Populares




Antes da implantação da indústria farmacêutica -o que, no Brasil, aconteceu nas primeiras décadas deste século o homem sempre procurou aliviar seus males apelando para as qualidades terapêuticas de certas plantas consideradas medicinais, costume herdado dos antepassados dos nossos antepassados.

 

E mesmo com o progresso tecnológico da indústria farmacêutica, os laboratórios ainda continuam usando as mesmas plantas (raizes, folhas, tubérculos e frutos) na fabricação da maioria dos remédios consumidos nos quatro cantos do mundo. E tanto é assim que a Suíça e outros países sempre importaram plantas medicinais brasileiras que, após sua industrialização, nos são devolvidas em forma de medicamentos vestidos com bonitas embalagens.

 

E a importância das plantas medicinais brasileiras é considerável, desde os tempos da colonização.

 

Quando Guilherme Piso chegou ao Recife, em 1637, na qualidade de médico do príncipe Mauricio de Nassau, "reconheceu a superioridade da terapêutica indígena" - segundo Rui dos Santos Pereira - que afirma: Para se ter uma rápida visão da medicina européia do século de Piso (o século XVII), e muito tempo depois, basta recordar que a farmacopéia de Edimburgo (Alemanha) contava, entre seus medicamentos, receitas à base de crânios de homens mortos em acidentes, secundina, fezes humanas, urina e pó de múmias, que só seriam retirados na edição de 1756, um século depois do livro de Piso. Os médicos portugueses não faziam por menos e utilizavam esterco de ovelhas para deter hemorragias vaginais. As farmácias dos jesuítas ficaram célebres na época colonial. Existe, nos arquivos da Companhia, uma coleção de Receitas de valor estimável. E no meio de notícias muito curiosas, necessárias para boa direção e acerto contra as enfermidades, encontramos um cozimento para virgindade perdida, do irmão-boticário Manuel de Carvalho".

 

E o que encontrou Guilherme Piso entre os indígenas de Pernambuco, que tomavam três banhos por dia, mais asseados do que os europeus colonizadores que não gostavam lá muito de água? Uma terapêutica muito natural, àbase de plantas: "Os índios prescindem de laboratórios, ademais, sempre têm à mão sucos verdes e frescos de ervas. Em vez dos remédios compostos de vários ingredientes, preferem os mais simples, em qualquer caso de cura, visto que por estes medicamentos os corpos não ficam tão irritados% adverte Piso.

 

Como terá nascido a medicina ortodoxa? Como e por que os homens começaram a usar certas plantas como remédios? Talvez vendo o teju lutar com uma cobra venenosa e, ao ser pela mesma picado, suspender momentaneamente a luta para comer um pedaço de batata de cabeça-de-negro como antídoto ou observando o cachorro comer capim para curar suas dores de barriga, é que o homem primitivo procurou imitar o comportamento dos animais quando doentes, para descobrir que determinadas plantas eram e continuam até hoje sendo capazes de curar muitos dos males que atacam o organismo humano. É uma suposição nossa, apenas, de vez que ninguém consegue saber como determinadas coisas começaram a existir, a ser, a acontecer. Trata-se de uma suposição que tem sua logicidade, pois foi vendo o gato cavar um buraco no chão para defecar e, em seguida, cobrir suas fezes que John Harrington inventou a privada, em 1596, e que somente no século XVIII foi instalada no Palácio de Versailles.

 

A verdade é que a medicina empírica nunca deixou de existir no Nordeste, onde continua sendo largamente usada tanto no litoral como no agreste e no sertão, principalmente pela população de baixa renda, sem recursos para comprar os produtos farmacêuticos industrializados que estão custando os olhos da cara.

 

E depois, então, que a Organização Mundial de Saúde recomendou o uso dos remédios populares em virtude de os mesmos não produzirem efeitos colaterais, a medicina folclórica passou a ser alvo da atenção de parte da imprensa, do rádio e da televisão. Todos esses meios de comunicação proporcionaram os mais diversos enfoques, mostrando a importância e o valor das plantas medicinais brasileiras. Duas ou mais revistas especializadas, estão circulando mensalmente com sucesso e muitos livros foram publicados sobre o assunto, enriquecendo, assim, sua bibliografia que, por sinal, já era bem vasta.

 

E a medicina popular, que andava até um pouco esquecida nos grandes centros, passou a ser mais usada por pessoas de todas as classes sociais, não somente como portadora de novas esperanças de cura como também uma solução econômica para grande parte da população brasileira.

 

As raizes da medicina popular estão gravadas na Bíblia, Apocalipse: 22, 1-2: "E ele me mostrou um rio da água da vida, resplandecente como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio de sua praça, e de uma a outra parte do rio, estava a árvore da vida, que dá doze frutos, produzindo em cada mês seu fruto e as folhas da árvore servem para a saúde das gentes".

 

À medida que os santos homens iam pregando a palavra de Deus entre os povos do mundo, a medicina popular ia se propagando, e os povos procuravam encontrar a árvore da vida experimentando todos os arbustos que encontravam para curar seus males,- dando, assim, a origem da medicina ortodoxa, folclórica, a medicina do povo.

 

Os sábios de então, por sua vez, pensavam encontrar o rio da água da vida. E como eram sábios, naturalmente sabiam mais do que os povos que quase nada sabiam., E como a palavra de Deus chegava ao conhecimento deles através de parábolas, entenderam, depois que fizeram experiências tratar-se de mera suposição de nossa parte que tinham de procurar um liquido que curasse os males das gentes, quer esse liquido fosse o suco de frutos ou tubérculos das plantas, quer o líquido fosse encontrado em fontes milagrosas.

 

Mas os povos, quando adoeciam, procuravam desordenadamente, encontrar nas diversas espécies de plantas, uma maneira de ficarem restabelecidas das doenças que contraiam por forças das adversas condições sanitárias em que viviam.

 

E assim, tropeçando nos erros e acertos, os povos, desde priscas eras, só dispunham dos remédios que criavam, feitos com as diversas partes das plantas até mesmo com pequenos animais, dando assim, asas à imaginação, à inventiva, à criatividade. E por conta desses métodos ortodoxos é que foram surgindo, também, os remédios mais curiosos e pitorescos que já tivemos notícia.

 

0 cólera morbus surgiu nas margens do Ganges, na Índia, e chegou ao Brasil em meados século do XX, a bordo da galera "Defensor" que atracou, em 1855, no porto de Belém do Pará. De Belém, o cólera se espalhou pelo Nordeste com tanta impetuosidade que conseguiu fazer 125.793 vítimas E em virtude da precariedade das condições sanitárias da região e por estar a medicina científica dando ainda seus primeiros passos, somente em Vitória de Santo Antão ceifou 4.000 vidas e, no Recife, 3.336 pessoas contraíram o mal e morreram.

 

No seu "Livro de Assentos" Félix Cavalcanti de Albuquerque Mello (1821-1901), escolhidos e anotados por Diogo de Melo Menezes e comentados por Gilberto Freyre, publicado algum tempo depois sob o título 0 Velho Félix e suas Memórias de um Cavalcanti, vamos encontrar um autêntico retrato em que grassou a epidemia do cólera Pernambuco.

 

Registrou o velho Félix no seu Livro de Assentos 'No dia 14 de 1854 se deu no Engenho Cacimbas no termo de Santo Antão, o primeiro caso de cholera-morbus desta comarca A comarca de Garanhuns foi o primeiro ponto da Província invadido pelo cholera. Passou a Papacaça e Altinho, seguiu para a capital e generalizou-se por toda a Província A cidade de Victoria diz-se geralmente, foi a localidade de Pernambuco onde a epidemia lavrou com maior intensidade. Constou das investigações da polícia ter havido dia de falecerem 120 pessoas, mortandade espantosa para uma cidade de 6.000 habitantes. Dizem que o conselho de Hygiene Ribeira, de acordo com o Presidente da Província José Bento da Cunha Figueiredo, havia deliberado mandar incendiar a cidade, porque a esperança de extinção do mal havia abandonado a todos. Felizmente um ofício do delegado do termo dirigido ao presidente, informando que a epidemia declinava de intensidade, suspendeu a execução do projeto ".

 

A medicina de então não dispunha de recursos para debelar o mal, o que não acontece agora.

 

O velho Félix foi acometido de cólera. Diz ele: "procurei então combater a diarrhea com aguardente e sal, segundo aconselhava o Dr. Sabino, do que me havia esquecido mas que foi lembrado por amigos que se achava refugiado em minha casa; e com effeito, o mal não resistiu à segunda dose. Suspendeo logo a evacuação. Considerei me escapo. Nada mais senti".

 

"Em 16 de junho de 1862 – prossegue o velho Félixe – foi acometida minha filha Lisbell (sinhá) do cholera morbus. Tendo se manifestado fraco, tomou depois aspecto grave. Quinze dias consevou-se de cama sem tomar alimento algum, além d`uma colher de vinho do porto, que às vezes lançava". (...) "tudo quanto os dois sistemas médicos aconselhavam aplicou-se mas em vão".

 

E como Lisbella, a filha do velho Félix conseguiu de restabelecer? 0 remédio para soltar urina foi o seguinte: "Cinco moscas torradas e dissolvidas em uma colher de água morna fizeram-na urinar em 13 minutos. Um sertanejo do Brejo da Madre de Deus me aconselhou este remédio, o qual eu recusei-me a aceitar; mas n'essa occasião estava lá em casa o meu amigo João Vicente, que se oppoz a minha recusa e mesmo foi procurar as moscas, eu as torrei, dei de beber a menina, o que produziu tão maravilhoso effeito".

 

Vejamos, em seguida, outros remédios curiosos e pitorescos até, usados pelo povo nordestino:

 

AMEBA. Tomar, durante trinta dias, em jejum, um copo de água fria com três gotas de creolina.

ASMA. 1) Tomar chá feito com enxerto-de-passarinho. 2) fumar um cigarro feito com folhas secas de zabumba. 3) comer testículos de porco assados e sevidos sem sal. 4) Tomar fel de boi misturado com um pouco de cachaça. 5) Tomar chá feito com o chocalho da cobra cascavel. 6) Tomar chá de "olho" que tem na pena do pavão.

AZIA. Beber um copo d`água no qual foram colocados três pitadas de cinza fria.

BICHO-DE-PË. Depois de retirado o bicho-de-pé, com auxilio de um alfinete, encher a cavidade com sarro de cachimbo.

GALO. Quando o sapato é novo, o calo é uma certeza: 1) colocar sobre o calo cera-de-ouvido. 2) Pingar no calo cera de aveloz.

CATAPORA. Para a catapora acabar de sair ou sair ainda mais depressa, nada como tomar chá feito de cabelo-de-milho sem açucar.

CACHUMBA. Aplica-se, no local, um emplasto feito com lodo de carregar água da cacimba.

DEDO, PÉ ou BRAÇO DESMENTIDOS. Dar uma surra no lugar afetado com um saquinho de sal grosso.

DESMAIO. 1) Passar, dentro do começo do nariz da pessoa desmaiada, uma pena de galinha até a pessoa voltar a si. 2) Soprar nos ouvidos e bater na sola dos pés a pessoa tornar, volta a si.

DOENÇA-DOS-OLHOS. 1) Pingar, no olho doente, algumas gotas de leite materno. 2) Banhar os olhos com água onde se pôs uma rosa branca.

DOR-DE-BARRIGA. 1) Tomar chá feito com a moela de galinha, crua. 2) Comer uma banana prata verdosa. 3) Comer um pedaço de macaxeira branca, crua.

DOR-DE-CABEÇA. Colocar, sobre a testa, uma mistura feita com pó de café e manteiga.

DOR-DE-DENTE 1) Introduzir na cárie, se couber, uma cabeça de fósforo. 2) Encher a cárie com o pó feito de chocalho da cobra cascavel. 3) Encher a cárie com sarro de cachimbo.

DOR-DE-GARGANTA. Comer tanajura torrada, se for tempo de tanajura.

DOR-DE-OUVIDO. Botar, no ouvido que estiver doendo três gotas de leite materno.

ENJÔO-DE-GRAVIDEZ. Comer pombo bem assado, sem sal.

ENJÔO-DE-VIAGEM-DE-AUTOMÓVEL 1) Colocar uma castanha de caju no bolso, se for homem, ou na bolsa, se for mulher. 2) Mascar uma cabeça de fósforo.

ERISIPELA. Amarrar, no tornozelo, urna fita vermelha.

FURÚNCULO. Para o furúnculo estourar, por si só, nada com colocar no "olho" da cabeça-de-prego, um emplastro feito com o couro do bacalhau, cru.

GALO-NA-CABEÇA. Quando se leva uma pancada na cabeça e aparece um "galo" nada como fazer, sobre ele, forte pressão com a folha de uma faca fria.

HEMORRAGIA. Colocar, no local da hemorragia externa, para parar o sangue, um chumaço de algodão embebido em verniz de carpinteiro.

BEMORRAGIA-NASAL. Molhar a cabeça em água fria e ficar olhando para o céu durante cinco minutos.

HEMORROIDAS. 1) Sentar num pedaço de tronco de bananeira recém-cortado. 2) Colocar uma pela de fumo no local. 3) Colocar compressas de querosene.

HIDROCELE ou ÁGUA-NAS-PARTES. Ferver a água necessária para quase encher uma bacia de tamanho médio em que se tenha colocada uma caixa de charutos vazia, para que o doente se acocore e possa tomar banho do vapor.

IMPINGEM. 1) É bom cobrir a impingem com tinta de escrever. 2) Esfregar a impingem com pólvora de caçador.

INDIGESTÃO. Chá feito com a pele que envolve a moela de uma galinha, crua.

JÁ-COMEÇA ou COCEIRA. Tomar banho com o cozimento de maxixes, sem camê-los.

LOMBRIGA. Comer coco seco raspado, em jejum até aborrecer.

MAL-DOS-SETE-COUROS. Passar, no local, sebo de carne-do-ceará, bem quente.

MIJAR-NA-CAMA. Nada como dar umas capadas na criança com um muçu vivo.

MORDIDA-DE-COBRA. Tomar meia garrafa de querosene e comer um prato de farofa com bacalhau assado na brasa.

MULHER-MANINHA. Para que a mulher venha a ter filhos: 1) Tomar água antes de ter relações sexuais. 2) Dar ao marido, todo dia, no almoço, carne de carneiro preto, com um copo de vinho.

PANOS-BRANCOS. Lavar o rosto ou a parte afetada pelos panos brancos, com água da chuva caída na hora.

PRISÃO-DE-VENTRE. Tomar chá de cupim.

QUEDA-DE-CABELO. Pentear os cabelos com um pente feito de chumbo.

SOLUÇO. Pregar um susto à pessoa que estiver com soluço.

TERÇOL. 1) Engolir nove caroços de limão durante três dias seguidos. 2) Esfregar, no chão, a semente de olho-de-boi e depois colocá-la sobre o olho onde está localizado o terçol.

TRIPA-DE-FORA (Prolapso do reto). Sentar a pessoa acometida do mal em um pedaço de tronco de bananeira cortado na hora.

UMBIGO-CRESCIDO-DE-RECÉM-NASCIDO. Chá de cabelo-de-milho.

URINA-PRESA. Fazer um chá do talo do jerimum, seco e torrado. 2) Chá de alpiste.

 

É assim que o nordestino pobre, sem INPS, procura, quando está doente, ficar bom para que possa cuidar do seu roçado, do seu trabalho. É assim que o imaginário popular sempre caminhou, de mãos dadas com o sonho da saúde e da cura.

 

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