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Pela voz do Povo


Lêda Rivas
Editora do Viver - Diário de Pernambuco - 18.AGO.1996


O etnólogo Mário Souto Maior não pertence a nenhuma corrente partidária e, ao que se sabe, nunca emprestou seu discurso aos palanques eleitorais. Mas, navegando em paralelo com o jargão preferido das esquerdas, há muito tempo defende que o povo - unido pelos seus valores culturais - jamais será vencido, "Não acredito que o mundo cibernético em que vivemos possa pulverizar as nossas expressões mais tradicionais", proclama, sacramentando a sua crença de que a tecnologia de ponta não conseguirá sepultar o folclore. Nem tirar das ruas o som, as cores e as vozes populares.
 

Autor da maior e mais expressiva obra sobre o folclore regional, da atualidade, Souto Maior, 76 anos, reitera suas convicções, ao acrescentar a sua vasta bibliografia mais um título, que será lançado na próxima quinta-feira, dia 22, na Sala Gilberto Osório de Andrade, da Fundação Joaquim Nabuco, em Apipucos. Em Os Mistérios do Faz-Mal (20-20 Comunicação e Editora, 103 págs. Recife, 1996), seu 42º livro, o estudioso inventaria tabus alimentares brasileiros, investigando suas origens e disseminação. E enquanto aguarda a quarta edição, pela Bagaço, de Nomes Próprios Pouco Comuns e a terceira de Como Nasce um Cabra da Peste, em livro e CD (numa parceria da 20-20 com a editora cearense 0 Curumim sem Nome), põe em andamento nova pesquisa: Qual é a sua Graça?, um dicionário dos nomes mais usados no Brasil e em Portugal - e respectivos significados - com os quais os pais costumam batizar seus filhos. Para assinalar a Semana do Folclore, que começa amanhã, Mário Souto Maior concedeu ao DIARIO esta entrevista.
 

DIARIO DE PERNAMBUCO - Na sua opinião, o pernambucano em geral se interessa e preza os elementos que compõem a nossa cultura?
MARIO SOUTO MAIOR - 0 pernambucano, de um modo geral, se interessa muito e muito preza a nossa cultura popular. 0 nosso carnaval (um dos pólos do carnaval brasileiro), os festejos juninos (com suas danças, suas comidas próprias da época, seus fogos e balões, suas adivinhações), as comemorações do Natal (com sua religiosidade popular, seus pastoris, suas lapinhas) são uma prova desse interesse. Mas é bom lembrar que a cidade grande é mais o lugar onde se estuda o folclore, nos colégios, nas universidades. 0 habitat das mais legítimas manifestações folclóricas ainda continua sendo o interior, o sertão, onde vive a gente mais simples e mais apegada as nossas tradições herdadas do português colonizador.
 

DP - E os órgãos oficiais, como se comportam no mesmo sentido?
MSM - Os órgãos oficiais, na minha opinião, deviam ser mais incentivadores e, sobretudo, mais participantes, em se tratando das nossas legítimas manifestações folclóricas, principalmente no que se refere à pureza dessa legitimidade. Tomemos o carnaval por exemplo. 0 que acontece com o nosso carnaval? Sendo o carnaval pernambucano o único que possui uma música (o frevo) e uma coreografia (o passo) próprias da época, o que não acontece com os demais Estados da Federação, seria de bom alvitre que os poderes públicos fiscalizassem mais - proibindo-as até - as músicas alienígenas que estão descaracterizando o nosso carnaval, através de seus trios-elétricos, tocando ritmos do Caribe. Assim fazendo, os poderes públicos estariam também valorizando as nossas orquestras, em detrimento dos carros de som que fazem poluição sonora e nada têm a ver com o tríduo momesco. As radiodifusoras e as estações de TV estão dando muita ênfase às músicas estrangeiras, desvalorizando o que é somente nosso e que constitui uma nossa tradição. Bem que a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado poderiam ter um assessor para assuntos folclóricos com a função de fiscalizar, de incentivar e ressuscitar as manifestações folclóricas mais esquecidas pelo povo da cidade grande. Nomes não faltam. Temos, só para lembrar uns poucos, nomes como Leonardo Dantas, Evandro Rabello e Roberto Benjamin, pessoas que amam a nossa terra, estudando sua história de braços dados com sua cultura.
 

DP - O que tem prejudicado, então, o esforço pela preservação do nosso folclore?
MSM - A política pode ser apontada como um exemplo. Cada vereador, por exemplo, pelo carnaval, destina sua verba de conformidade com seu eleitorado, E o que se vê? Muitas escolas de samba (não tenho nada contra as escolas de samba) recebem muito mais dinheiro do que os clubes, maracatus, blocos, caboclinhos tradicionalmente pernambucanos. Algumas entidades estaduais ou federais incentivam mais alguns grupos para-folclóricos, semi-elitizados do que, mesmo, as nossas pequenas e pobres agremiações carnavalescas. 0 que é preciso é valorizar as manifestações rigorosamente folclóricas, emanadas do povo, com sua tradição, com suas raízes.
 

DP - Nossas afinidades com a África têm sido subestimadas nos currículos escolares. A que o senhor atribui esse descaso?
MSM - Ao fato de muitos dos nossos educadores não haverem ainda compreendido a enormidade e o peso da contribuição do escravo africano à indústria do açúcar, a nossa música, a nossa culinária, a nossa língua. No dia em que for reconhecido seu valor, os currículos escolares deixarão de ser objeto de tão grande injustiça. Não fosse essa contribuição, o nosso folclore, a nossa música, a nossa culinária, a nossa língua perderiam um bocado da riqueza que têm.
 

DP - Há uma linha delimitando a cultura popular e a cultura chamada erudita?

MSM - A cultura popular, como todo mundo sabe, é oriunda do povo, independendo de sua escolaridade. Por seu intermédio, o povo expressa sua sabedoria, sua filosofia, sua poesia, seus provérbios, suas crendices etc. Já a cultura erudita é própria dos que alisaram os bancos dos colégios, das universidades. Não creio na existência de limite entre as duas culturas, principalmente porque a cultura popular foi, não sei ao certo se assim possa dizer, a infância da cultura erudita. Cada cultura tem seu caminho a percorrer e, por vezes, tais caminhos se cruzam, se complementam, fazendo com que fique difícil a delimitação de uma linha que separe uma da outra.
 

DP - 0 escritor francês Dominique Fernandez, que recentemente lançou 0 Ouro dos Trópicos, um livro de viagem pelo Brasil e Portugal, diz que "não há cultura sem mistura de raças". 0 senhor acredita que uma cultura possa se manter, realmente, pura, intocada?
MSM - Cada povo deve lutar, com todas as suas forças, fazer o possível para que sua cultura permaneça sempre viva. É difícil, entretanto, qualquer povo manter sua cultura pura, intocável. A televisão a cabo, a Imprensa, os livros traduzidos para a nossa língua, as viagens ao estrangeiro fazem com que a cultura de todos povos se misture, fique eclética, internacional, sofrendo, cada uma de per si as influências mais diferentes que se possa imaginar. Não se pode manter uma cultura numa redoma, numa proveta, de vez que toda cultura é dinâmica e não pára no tempo.
 

DP - Por falar nisso, o mundo cibernético tende a pulverizar, pelo menos nas grandes cidades, as manifestações populares mais tradicionais? A informática vai tirar das praças o som, as cores e as vozes do povo?
MSM - Não acredito que o mundo cibernético em que vivemos possa pulverizar as manifestações populares mais tradicionais. A televisão, por exemplo, não sei se por motivos econômicos, ainda não penetrou nas casas humildes dos habitantes das pequenas cidades, vilas, fazendas. Os rurícolas continuam vivendo no seu mundo à parte, com suas tradições, seu folclore, suas crenças. Já nas grandes cidades, onde as pessoas são mais massificadas, mais materializadas, principalmente entre os que são considerados como eruditos, a cibernética já começou a fazer suas vítimas. A informática também ainda não atingiu as camadas populares das selvas de pedra, razão pela qual o som, as cores e as vozes do povo continuarão existindo através dos séculos.
 

DP - Afinal, qual é o futuro do folclore?
MSM - 0 folclore é o povo e enquanto o povo existir, existirá o folclore. Quando o homem empreendeu sua primeira viagem espacial fez-se acompanhar de uma cadela, uma mascote. Quando o primeiro homem pisou o solo lunar, fez questão de começar sua caminhada com o pé direito. Crendices? Folclore. A tecnologia de ponta não conseguiu sepultar o folclore, e enquanto o povo existir, ele sempre existirá. Mesmo porque o folclore nunca morrerá. Nós, sim, é que morreremos.

 

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