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O palavrão não fica bem em boca de mulher




Lêda Rivas

Diário de Pernambuco - 23.JUN.1980


Um homem simples e uma obra polêmica: Mário Souto Maior e o seu "Dicionário do Palavrão e Termos Afins", liberado pela Censura Federal o ano passado e publicado este ano, pela Editora Guararapes, com prefácio de Gilberto Freyre. Considerada importante estudo lingüístico, a obra contém, em suas 335 páginas, quase três mil palavrões, de A a Z, comumente usados em todo o Brasil, de Norte a Sul.

Em seu trabalho de pesquisa, o etnólogo constatou, entre outras coisas, que: o homem, o jovem e pobre falam mais palavrão do que a mulher, o velho e o rico; a criança de hoje ganha para a de ontem, quanto ao uso do palavrão (e o aumento dos meios de comunicação foi o motivo mais apontado); o romancista Jorge Amado foi considerado o escritor que mais usa o palavrão; mãe, por ser a pessoa mais querida de todos nós, é a pessoa mais xingada, o mesmo acontecendo com marido enganado; o nu erótico não pode ser considerado um palavrão plástico; diversos nomes próprios são eufemismos dos órgãos sexuais etc.
 

DP - Por que a idéia de um dicionário de palavrões?
MSM - A idéia, inicialmente, não era elaborar um Dicionário do Palavrão. Já fazia uns quatro anos que eu estava trabalhando no que eu chamava Vocabulário Popular do Sexo. Aconteceu que, certa tarde, o escritor Gilberto Freyre me mostrou uma notícia de que havia sido publicado um dicionário de palavrões na Alemanha e me fez a pergunta: "Por que você não aproveita suas notas, suas fichas, seus apontamentos, e faz um dicionário do palavrão brasileiro?" Respondi que a idéia era boa, mas os palavrões (vocábulos injuriosos conhecidos antigamente como nomes feios) brasileiros não chegaram a 100. Daí nasceu o título "Dicionário do Palavrão e Termos Afins", englobando não somente os palavrões, como, também locuções, vocábulos e tudo que dissesse respeito a sexo, amor físico, órgão sexual etc., usados pelo povo brasileiro.
 

DP - Como foram coletados os dados para a elaboração do livro?
MSM - Parte do levantamento bibliográfico referente à idéia-mãe do projeto. Depois, distribuí 4000 questionários em todo o País e recebi 3620, devidamente preenchidos. Por se tratar de um assunto nunca explorado, o interesse foi muito grande, não somente da parte das pessoas, como também da Imprensa, que deu uma substancial cobertura durante todas as fases, desde a coleta de dados até sua publicação. Um professor de Porto Alegre, por exemplo, mandou tirar cem cópias do questionário que lhe mandei e aplicou-os na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nunca fiz uma pesquisa para merecer tanto apoio como no caso do palavrão.
 

DP - Quais as dificuldades que o senhor encontrou para a publicação do Dicionário?
MSM - 0 único obstáculo que encontrei para a publicação do livro não foi a Censura Federal, que examinou o livro durante menos de trinta dias, enviando-o, depois, para o senhor Ministro da Justiça da época, para ser ou não liberado. Nesse ínterim, a Comissão de Moral e Civismo do MEC pediu vista do processo, ficando com o mesmo até um dia desses.
 

DP - 0 senhor vê o palavrão como um "desvirtuamento" da língua?
MSM - Sempre acreditei que a língua de um país é feita pelo povo. 0 povo usa sua inventiva para criar palavras. Essas palavras começam a ter vida própria, passam a ser usadas cada vez por maior número de pessoas até que os dicionaristas, certos de seu uso generalizado, chegam à conclusão de que elas já fazem parte da língua e são registradas nos dicionários. 0 povo tem inventado muita palavra nova, muita locução nova que Aurélio Buarque de Holanda já arrumou no seu "Aurelião". Os palavrões de antigamente figuram nos livros dos clássicos da língua que falamos. 0 palavrão não é um desvirtuamento da língua, creio. Pode ser que seja uma doença da língua que acometia uma pequena minoria populacional, mas que hoje passou a ser uma maioria nacional por conta dos novos rumos que está tomando a educação moderna, a psicologia moderna, a literatura moderna e os modernos meios de comunicação social.
 

DP - Então, entre gírias e palavrões, a nova geração está criando uma nova língua?
MSM - Não digo que, entre gírias e palavrões, a nova geração esteja criando uma nova língua. Há, sim, um enriquecimento quantitativo da língua, uma elasticidade através da palavra que continua sendo o maior comunicador social. Esse enriquecimento é uma conseqüência da liberalidade que está procurando dominar o mundo através da violência, no caso, uma violência oral, responsável por muitos crimes cometidos principalmente no Interior, onde o nosso homem do campo; às vezes, mata quando lhe é dirigido um palavrão capaz de ferir sua honra.
 

DP - E o senhor, admite e aceita o palavrão?
MSM - Escrevi dois livros e muitos artigos sobre a cachaça e não bebo. 0 mesmo acontece com relação ao palavrão, que por mim foi estudado dentro de minhas possibilidades, mas não faço sua apologia. Sei que, em determinadas ocasiões, todo mundo diz seu palavrão; quando a educação não lhe permite a vocalização do palavrão, o mesmo é articulado mentalmente. Acho que funcione, vez por outra, como válvula de escape, como uma necessidade. Sou um homem comum, normal, não sou um puritano. Acho que certos palavrões nunca ficam bem quando pronunciados por uma mulher, por uma criança. E o que vemos é o uso de palavrão por homens, mulheres e crianças, sem que seja necessário, no momento errado, pelo simples fato de quererem ser modernos, pra frente.
 

DP - Como o senhor vê a liberação, pela Censura, de tantas pornochanchadas?
MSM - Eu acho que o artista tem que ser livre na sua criatividade para poder ser, realmente, um artista. Ele pode criar obras sofríveis, boas ou ótimas, dependendo unicamente de seu potencial artístico. As pornochanchadas, em todos os países do mundo, só serão produzidas até o dia em que tiverem público. No dia em que os cinemas ficarem vazios, elas desaparecerão. Elas são uma conseqüência da onda erótica que está envolvendo quase todos os povos. Trata-se, a meu ver, de um modismo, como na música tivemos discothéque, rock etc. No dia em que a mulher compreender que está sendo usada como objeto sexual e se revoltar contra esse uso, tudo voltará ao normal. Mesmo porque a mulher é qualquer coisa de divino na sua maternidade, na sua beleza, na sua arte, na sua profissão.

 

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