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É cultura, pô - Liberado o dicionário de palavrões




Revista Veja- nº 561 - 06 de junho de 1979


Durante quatro anos, o respeitável etnólogo pernambucano Mário Boaventura Souto Maior, hoje com 58 anos, recebeu pelo correio os mais chocantes palavrões. Longe de ofender-se, ele anotou-os criteriosamente – e mais: em seus contatos com qualquer pessoa, fosse num cabaré ou numa casa de família, levava deliberadamente a conversa para terrenos escabrosos e escatológicos; e em seu gabinete de trabalho, madrugada adentro, atirava-se sofregamente à leitura de todo livro em que, com a voluptuosidade de um adolescente voyeur, pudesse encontrar vulgaridades. Em julho de 1974, finalmente, quando já havia recolhido mais de 3000 vocábulos dessa natureza, compondo o primeiro "Dicionário do Palavrão e Termos Afins" do Brasil, Souto Maior foi informado pela Polícia Federal de que a Comissão de Moral e Civismo do Ministério da Educação considerava a obra literalmente impublicável.
 

Foi preciso esperar cinco anos para que as autoridades de Brasília, no mês passado, liberassem o livro pioneiro do etnólogo, apresentado agora como um trabalho de relevante importância para a cultura nacional. Além do nihil obstat e dos louvores governamentais, o dicionário vai para o prelo com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre, orelhas do juiz de Direito carioca Eliézer Rosa, comentários de Aurélio Buarque de Holanda, capa de Francisco Brennand e contracapa de Jorge Amado, indiscutível autoridade no assunto. Com 5 000 exemplares, deverá marcar a estréia da Editora Guararapes, do Recife, no próximo mês de agosto.

 

DE NORTE A SUL - A Gilberto Freyre se deve, além do prefácio, a própria existência do dicionário. Com efeito, o que Souto Maior pretendia, ao iniciar o seu trabalho, em 1970, era simplesmente um "Vocabulário Popular do Sexo". Consultado, Gilberto Freyre lhe disse que não haveria material para tanto, pois os palavrões que temos, trazidos pelos colonizadores e pelos clássicos portugueses, não chegam a sessenta. Por que, então, sugeriu o autor de "Alhos e Bugalhos", não fazer algo mais ambicioso, um dicionário do palavrão e termos afins?
 

Sugestão aceita, Souto Maior elaborou um questionário, enviado a 3 800 pessoas, entre as quais escritores. Pôs-se a anotar o que ouvia em toda parte e atravessou, com a voracidade de um cupim, perto de 300 clássicos brasileiros e portugueses. Essas leituras, aliás, o levariam a curiosas constatações, como a da pudicícia de José de Alencar e Machado de Assis, por exemplo, que jamais escreveram um palavrão. Já as respostas ao questionário lhe permitiram saber, entre outras coisas, que a cidade do Rio de Janeiro é a mais pornográfica, ou pornofônica, do Brasil, na medida em que forneceu cerca de 35% dos verbetes.
 

"Parece que isso se deve ao fato de o carioca só querer fazer humor e amor", arrisca Souto Maior. Em segundo lugar vêm os baianos - e também aqui o etnólogo não vê mistérios: "Talvez Jorge Amado tenha razão quando diz 'Bahia de Todos os Santos e de Todos os Pecados' ". 0 terceiro e quarto postos indicam um quase empate entre São Paulo e Porto Alegre, com ligeira vantagem para a capital paulista. Em quinto lugar, bem mais abaixo, está Recife. Na outra ponta desse ranking, não resta dúvida de que o galardão da castidade vocabular pertencerá a Teresina, ou a São Luís do Maranhão, cada uma delas contribuindo com minguados 5% para o dicionário. "E isso por uma razão muito simples", explica Souto Maior: trata-se de cidades ainda semi-rurais, onde a televisão chegou há relativamente pouco tempo.


COMO 0 SAMBA - "Um palavrão cresce de acordo com a densidade demográfica do local onde surgiu", sentencia o etnólogo. "Assim, um palavrão surgido no Rio de Janeiro tem muito mais condições de se tornar nacional que um nascido no Ceará, por exemplo." É no Rio, ainda, que ele localiza a maior fartura de variantes de palavrões - como pó, cacilda, putzgrila e tantos outros que o Pasquim consagrou. Estas amostras, precisamente, viriam comprovar a tese de Souto Maior, de que o palavrão tende a percorrer trajetória semelhante à do samba, que desce do morro, ganha o asfalto e ali se sofistica em quilométricos sambas-enredo: "0 palavrão também, ele sai do meio do povo, sobe à classe média e atinge a elite intelectual, que, como no caso do Pasquim, o recria à sua maneira".
 

A anatomia humana, muito explicavelmente, constitui abundante fonte de inspiração, em especial os órgãos genitais masculinos e femininos. Só para pênis, por exemplo, Souto Maior coletou mais de 200 designações, do Oiapoque ao Chuí. Nem sempre esses epítetos têm uma clara relação com seu objeto - como os desconcertantes "migué" e "mané souza", nomes quase próprios que em certos pontos do nordeste remetem à genitália da mulher e à do homem, respectivamente. Na maioria dos casos, segundo o etnólogo, "o palavrão é um desabafo nascido de um momento de revolta, adversidade, sofrimento, admiração ou espanto". E, embora se tenha tornado "um modismo exagerado", não se pode negar sua contribuição à cultura. "Sim", defende Souto Maior, "palavrão é cultura, porquanto é literatura. Nos cursos que dou, ele participa como literatura oral e literatura de latrina".

 

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