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Fátima Quintas




Quem não conhece Mário Souto Maior jamais poderá imaginar o seu jeito de ser. Um jeito muito especial que guarda um misto de ternura e sensualidade. Sim, sensualidade. Sensualidade científica, aquela que persegue com obstinação o conhecimento - desconhecendo possíveis barreiras -, que se alimenta de história e estórias e que se delicia com os acontecimentos de cunho popular. Uma vida voltada para o fato sociológico, interpretado revivificado pelos seus contadores. Não se satisfaz com pouco: cascavilha, debruça-se nos enigmas aparentemente insondáveis, vai ao mistério das coisas, incansável no indagar; um verdadeiro pesquisador que consegue transformar o fenômeno, às vezes monótono e cansativo, num erotismo original renovado a cada passo pela ânsia de descobrir o que se imiscui dentro da alma da multidão anônima. Há uma certa inquietação nessa busca pelas origens de seu povo. Atento, quase sempre em estado de alerta, descerra os véus que tentam encobrir a autenticidade dessa gente sofrida, angustiada, porém carregada de idéias e principalmente de sabedoria.

 

Em Mário, os dias não se repetem ou se repetem numa continuidade privilegiada. No seu gabinete, solitário ou, talvez, solidariamente ele atrai para si a vida palpitante de momentos fugidios que poderiam parecer insignificantes. Na verdade, a dinâmica de sua ação transforma os cicios da madrugada em oráculos de inspiração. Não exagero quando digo que seu "canto" tão souto-maiormente vivido representa um local de harmonia, de tranqüilidade, de paz, ao lado de uma efervescência constante a permitir a plena ebulição de uma mente perscrutadora. Contraditório? Não. Ou, talvez, sim. Quem não o é. A contradição enriquece e alicerça as emoções. Da ambigüidade geram-se grandes renovações. Do confronto advém o ponto maior da incessante procura. Das incertezas corriqueiras às certezas afetivas, Mário convive com um manancial de sentimentos que eclodem de um intimismo por ele enaltecido. Um intimista visceral a retomar na voz do outro a consciência de si mesmo.
 

Sogras: prós & contras e outras conversas condensa o que há de mais aliciante no que toca a narrativas universais. Digo universal porque o folclore em Mário não se reduz a um regionalismo unilateral, mas se embasa num universalismo regional para, a partir daí, germinar o amplo, o abrangente, o extenso. Em qualquer lugar do mundo, no mais reservado grupo social, a figura da sogra é vista através de estereótipos, quer de negatividade, quer de positividade: desprezo, elogios, descaso, honrarias, relações conflituadas ou de equilíbrio. Sempre atitudes opostas a ratificar posiçòes de afeto ou desafeto. "O velho Panfo fica vermelho de raiva diante de sua sogra". Quantos velhos Panfos existem por aí a maldizer a imagem quase sempre "repudiada" da sogra. Milhares são os que fazem mandingas que envolvem desejos pouco enaltecedores ao se tratar de sogras por perto. A própria culinária e, principalmente ela, tão bem definida pela antropologia - Gilberto Freyre foi um pioneiro nessa análise ao valorizar os rituais que cercam a alimentação, através dos costumes à mesa, das docerias e quitutes preferidos, do açúcar a percorrer o sangue na sociedade canavieira -, revela-se no livro com um toque singular ao enumerar guloseimas com nomes de sogra: beijo de sogra, olho de sogra, pudim de sogrinha... Souto Maior com a habilidade de um pesquisador nato recolhe receitas e repassa-as aos leitores procurando estabelecer a influência da culinária no gosto popular, Não fica por aí. Continua caminhando e nas suas andanças descreve um anedotário fantástico, com cheiro e sabor de mito e realidade. Legendas de caminhões são exploradas de modo a captar toda a filosofia dos pára-choques. Que grande sabedoria, essa que exprime as fantasias daqueles que passam os dias e as noites nas estradas vivendo de sonhos passageiros e efêmeros. Caminhoneiros que acabam contextualizando temas, de formas quantas vezes caricaturais, deixando revelar o silêncio de seus embutidos sentimentos. Sogras, mulheres desejadas, fé, misticismo... evocados.
 

Nada escapa a Mário Souto Maior. Ele é o guardião do folclore nordestino adubando as nossas divulgações com todo o élan do seu desejo cientificamente sensual. Da conversa lesa, do bate-papo inocente, da troca ingênua de expressões emanam grandes rasgos criativos de um estudioso que não esmorece no seu afã de trabalhar e revolver novas interpretações. Vejo-o diariamente, sentado à sua escrivaninha, olhar meigo, temperamento dócil, caráter firme a sugar das caixinhas de segredo os enigmas dessa gente que é a gente do nosso povo. Da Cachaça ao Dicionário do palavrão, dos Nomes Próprios Pouco Comuns à Antologia do Carnaval, da Morte na Boca do Povo a Comes e Bebes do Nordeste, Souto Maior decifra o perfil do outro numa atitude, sem dúvida nenhuma, proustiana. A tentativa de encontrar as raízes coletivas reflete a vontade de redescobrir as suas próprias raízes. Um Mário sensual, um Mário intimista, um Mário proustiano. Em busca da infância, dos papagaios empinados a céu aberto, dos jogos de futebol disputados com espírito competitivo, dos bodoques atirados em terrenos baldios, dos namoros iniciados em quermesses de colégio religiosos, do beijo proibido ofertado à garota não menos proibida, dos balões de São João que subiram e sumiram no ar, do amor que se fez perene na união com Carmen... Mário um proustiano em busca do tempo perdido nos casarões de Bom Jardim a antever os tempos de hoje e a perpetuar-se através da sua vasta obra nos tempos de amanhã.
 

Orelhas de Sogras: Prós & Contras - e outras conversas. Recife, 1992

 

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